O certo, o errado, e o “depende”

Entrevista dada por Áurea Grigoletti à “Ação Interativa”

O CERTO, O ERRADO E O “DEPENDE”

O conceito de ética é dos mais antigos e não perde a contemporaneidade. Recentemente, pautou as manifestações populares que levaram milhões de brasileiros às ruas. Sobre este tema apaixonante, conversamos com Áurea Grigoletti que proferiu palestra sobre o assunto.

  • Se a maioria do mundo clama pela ética, por que é tão difícil estabelece-la?

Talvez porque os modelos de sucesso de que mais ouvimos falar não estejam pautados na ética e na moral. Quando uma pessoa de comportamento inadequado aparece em revistas importantes como alguém que está se saindo bem, fica difícil convencer a sociedade de que é preciso ser ético e que isto é bom. Há que se considerar, também, a questão das pequenas ações em desacordo com os códigos de ética locais – muitas pessoas que clamam por  ética praticam esses pequenos delitos. Para elas, por “pequenos” que são, não chegam a representar nada em relação àqueles maiores que aparecem na mídia, mas não, pequenos ou grandes, continuam a ser “delitos”. Um exemplo: estacionar na vaga de pessoas com deficiência ou de idosos é uma ação tão contrária à ética quanto qualquer outra aparentemente maior. Quem clama por ética há que ser, parecer e se comportar de forma ética em qualquer situação, em locais públicos ou não.

  • Mesmo variando de cultura para cultura, há elementos de interseção entre os diferentes conceitos de ética dos povos?

Ética implica em Respeito aos “Códigos de Ética” do local em que nos encontramos. Há algumas palavras vinculadas à ética que são comuns a todos os povos: Respeito é a principal delas. Integridade, responsabilidade e compromisso são também boas palavras de ordem quando se fala sobre ética e todas elas são comuns a todos os povos. Por outro lado, os códigos de ética de um país, comunidade ou sociedade podem não ser similares aos de outros povos, sociedades e culturas, mas é esperado, ao menos que, mesmo não concordando com esses, os respeitemos, ainda assim.

  • Hoje em dia, nas empresas, várias gerações convivem e trabalham juntas. Isso pode nos ajudar a entender a questão do assédio nas organizações?

Não!

Assédio existe hoje, existiu ontem e, voltando muitos anos na linha do tempo, também existia, sob diversas formas e independentemente do mix de gerações ali encontrados. É possível encontrar informações na história. Quantos casos de assédio aparecem nos livros de história do nosso país? Muitos. Se nos aprofundarmos, poderemos concluir que muitos nomes importantes, em inúmeros momentos, praticaram assédios morais, para não falar dos sexuais – o Pedro que viajava em seu cavalo para encontrar com a sua amante, que o aceitava por conta do poder de seu cargo e não necessariamente de seu perfume é um exemplo interessante.

Hoje, diante da rapidez com que temos a informação, pode parecer que há mais ocorrências de assédios do que no passado, o que não é verdade. O que está acontecendo hoje, ao contrário do que acontecia no passado, é que não se toleram mais certas ações, e as pessoas buscam ajuda nos órgãos de defesa com muito mais frequência do que antigamente.

  • Diversas empresas possuem códigos de ética, levadas ao conhecimento dos colaboradores, geralmente, em forma de manual impresso ou por algum meio eletrônico. Isso funciona?

Funciona se não for “para inglês ver”, ou que sabe, americano, chinês, japonês. O manual com os “Códigos de Ética” de uma empresa indica os caminhos que ela entende que sejam os mais adequados para que se atinjam os resultados esperados. É a partir deles que se desenham as demais políticas, fluxos e processos da organização. Óbvio que, se não forem seguidos pelos principais executivos da companhia, de nada adiantará tê-los bem escritos num manual, portanto, Códigos de Ética devem nortear as ações do CEO, dos sócios e de toda a direção da empresa que, pelo exemplo, comprovarão tudo o que está escrito no manual entregue aos funcionários, levando-os a se comprometerem a agir conforme os padrões ali estabelecidos.

  • É possível conciliar assediador e assediado, ou a demissão de um deles é inevitável?

Vai depender da ocorrência, da sua confirmação e do mal que possa ter causado. Particularmente, não entendo que a demissão seja a única saída. Entendo, porém, que alguma ação sempre deva ser tomada. O assediador tem que saber que a empresa sabe, não tolera e não permitirá que tal situação persista. O assediado tem que sentir apoio e segurança nas ações da empresa. Às vezes, mudanças na estrutura, a fim de que assediador e assediado não tenham tanta proximidade, podem ser bem-vindas. O Manual com os Códigos de Ética é uma ferramenta importante para deixar claro o que se espera e o que não se espera de todos na organização, inclusive, quais serão as ações que a empresa tomará caso algum dos códigos seja quebrado por algum dos colaboradores – isso, permeado entre todos e com o respaldo importante da alta direção, em geral, já corrige certos comportamentos inadequados.

Para encerrar a entrevista, Áurea faz um convite à reflexão:

É importante que todos nós pensemos mais sobre as nossas próprias ações antes de julgarmos os outros – coisa muito difícil de fazer.

  • Como temos agido em relação a colegas, colaboradores, líderes (superiores) e mesmo com familiares?
  • E nas mídias sociais (Facebook, instagram, snapchat, entre tantas outras) – como nos comportamos?
  • E quando não nos identificamos com alguma ideia de um colega, ou mesmo com uma pessoa ou seu ponto de vista, suas opções?

Pense nisso!

 

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